segunda-feira, 31 de maio de 2010

Vivendo e aprendendo

Vivendo e apredendo
Paulo Castelo Branco

Nos cumprimentos recebidos após a missa de Ação de Graças dos formandos em Direito, lá estava eu recebendo o carinho dos meus pais, irmãos e amigos. Meu pai, nordestino de pele e alma curtidas na dura vida, se aproximou sem sorrisos: – Doutor Paulinho, você pensa que sabe tudo, mas não sabe de nada. A diplomação é só o início de uma longa caminhada. Deus o proteja. E saiu sem deixar transparecer emoções.

Meu pai tinha razão. Poucos anos depois, já em Brasília, recebi a visita dele e de minha mãe. Eu não sabia que era a despedida. Eles logo se foram para sempre. Primeiro minha mãe e, em seguida, meu pai. Foi tão rápido que eu ainda os via passeando de mãos dadas no gramado estorricado da seca inclemente daqueles anos 70. Era verdade, eu não sabia de nada.

E assim se passaram os anos, como diz a canção. Quase todos os dias aprendo alguma coisa. Não estou falando das novidades da ciência, que está criando vida. Essa tal da bactéria que servirá para melhorar a qualidade de vida dos humanos será a mesma bactéria que poderá se multiplicar e transtornar a vida do mundo. Como diria meu pai, eles pensam que sabem de tudo, mas, são como eu; não sabem nada.

O desconhecimento sobre coisas, fatos ou pessoas, é assombroso. No caso da política, mais ainda. Nestes anos em que vivo em Brasília, tive oportunidade de conhecer muitos homens públicos que me surpreenderam; uns para o bem, outros para o mal. O caso do presidente Lula é o que mais me impressiona. Lembro-me do líder sindical maneiro que chegava com sorriso aberto e cumprimentava a todos à porta do Hotel Naoum. Do porteiro ao gerente; do hóspede ao engraxate. Ninguém imaginava que o nordestino baixo, atarracado e de linguajar popular um dia seria presidente do Brasil. E que presidente!

Nós eleitores, que votamos nele quase sem esperanças, não sabíamos de nada. Queríamos apenas provocar os amigos conservadores nas conversas descontraídas de fim de noite.
Outros políticos também nos surpreendiam como Dr. Ulisses Guimarães, o “Senhor Diretas Já”. Era genial o hábil deputado. Na eleição presidencial, lá estava altivo enfrentando a difícil campanha. Não sabíamos de nada. Na hora da apuração, para decepção dos especialistas em eleições, o mestre apareceu na rabeira junto com outros nomes ilustres.

E os do mal? Esses não se cansam de nos surpreender. É um tal de gente séria e ética aparecer nas telas de televisão com as mãos algemadas e cobertas por mantas de cetim. Imaginávamos que os figurões eram pessoas de reputação ilibada; no entanto, com a incontrolável internet, em qualquer blog surge a imagem autocensurada nos meios de comunicação, e lá se vai mais uma reputação. É claro que alguns cuidados devem ser tomados para que não se caia na esparrela de divulgar falsas notícias ou imagens. Porém, até hoje, poucas são as notícias que merecem reparos. Na verdade, mais uma vez, o povo não sabia de nada. Igual ao bom presidente, nos seus dias de angústia.

Agora mesmo vivo num tremendo dilema. Durante algum tempo, tenho o privilégio de praticar caminhada no mesmo horário em que a ex-ministra Dilma Roussef se exercita. Trocamos educados bons-dias e breves comentários sobre o cachorro do Zé Dirceu, o “Nêgo”, que mergulha nas águas geladas do Lago Paranoá e se sacode espalhando água para todo lado. É uma boa herança que Dilma recebeu do companheiro de lutas. O “Nêgo” é muito divertido!

Pois bem, depois de ungida por Lula como a candidata à sucessão, Dilma está mudando. Primeiro sofreu muito com o câncer que, para ela, se transformou num motivo de divulgação da sua imagem. Deve ter sido difícil manter um sorriso nos lábios após diagnóstico tão cruel. Superou a doença, o PT, a mídia, e, agora, o seu adversário, que desce a serra em desabalada carreira.

Mas não é que a candidata se transformou em outra pessoa? Durante meses, fui me acostumando a vê-la, pela manhã, com a fisionomia de uma pessoa comum. Já estava animado em depositar o meu voto no nº 13, por enxergar na ex-ministra uma vizinha agradável e repleta de qualidades que, até então, desconhecia. Já havia assistido à sua performance numa cozinha improvisada, estalando ovos, como se os estivesse pisando. Também assisti à sua recusa em dançar o “rebolation”. Estava ótima, nem precisou dançar.
Nesses dias, Dilma estava em Nova York. Numa fotografia entre o presidente do Senado, José Sarney, e o da Câmara, Michel Temer, nem a reconheci. Parecia uma estrela de Hollywood. Tailleur vermelho, saia preta, sapatos Manolo Blahnik, colar com discreto pendente, maquiagem,maquiagem de Rose Paz e cabelos C.Nakamura. Estava exuberante. Ela não era mais ela. E nós não sabíamos de nada.



Paulo Castelo Branco.
Paulo Castelo Brando é advogado e Ex Secretário de Segurança Pública do DF

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