Por: Paulo Castelo Branco
E-mail: pcbranco@brasiliaemdia.com.br
Correu feito notícia ruim; mas era boa. Isto é, poderia ser boa se não fosse a má vontade de Amelinha. Eufrásio leu a manchete do jornal e logo começou a fantasiar em sua cabeça o que poderia fazer para incrementar a vida conjugal.
O ministro, cabeludo e sorridente, fazia uma série de recomendações sobre o que os cidadãos deveriam praticar para ter uma vida saudável. Era alguma coisa sobre pressão alta, uso indiscriminado de sal, abuso no consumo de gorduras, álcool, fumo e excesso de estresse.
As recomendações eram as mesmas que o médico da fábrica descrevia pelo alto-falante às sextas-feiras, logo após o almoço. Era uma gravação, pois, enquanto sua voz ecoava por todos os cantos, numa mesa da chefia, o médico enchia o bucho com a dobradinha tradicional servida no último dia de trabalho da semana. Era difícil continuar a trabalhar depois do rega-bofe.
A voz dizia:
– Não se esqueçam! Amanhã, sábado, deixem de lado as gorduras saturadas, a pinguinha, a leitoa pururuca e os doces caseiros, e comam muita salada e frutas. Depois da pelada no campo de futebol, esqueçam a cervejinha e bebam sucos naturais. Esqueçam os problemas, façam piquenique com as crianças nos parques da cidade e, no final da tarde, convidem as respectivas patroas para um cineminha, sem pipoca ou refri. Vida saudável é vida longa!!!!
No jornal, além de todas as conhecidas recomendações, o ministro, também médico, incluiu sexo cinco vezes por semana, desde que seguro.
– Não esqueçam da camisinha! – disse o malicioso sexólogo.
Eufrásio colocou o jornal na mochila e ficou olhando a paisagem passando rápida pela janela do trem. Não havia ninguém conhecido com quem pudesse comentar a notícia. No silêncio, relembrou os anos da juventude ao lado de Amelinha. Eram muito jovens, quando começaram o namoro. Ela, dois anos mais nova, era a menina mais bonita do bairro. Face emoldurada por longos cabelos loiros e corpo despontando para se tornar a mulherona em que se transformou. No dia do casamento, Amelinha parecia uma deusa em seu vestido branco e decotado. Eufrásio tremeu ao recebê-la das mãos do pai. A festa foi só um bolo. O padrinho, dono da mercearia da esquina, ofereceu uma noite num dos hotéis da região. Foi a lua-de-mel tão esperada.
Amelinha deixou o recato de lado e surgiu no quarto, saindo do banheiro ainda molhada do banho frio, com o corpo todo arrepiado. Foi uma loucura. Ao acordarem pela manhã, haviam contabilizado as recomendações semanais do ministro. Naqueles tempos, sem camisinha, pois desejavam muito ter filhos.
Não deu outra. Em poucos dias, lá estava a maravilhosa Amelinha contando para todos que estava grávida. Julinho nasceu tão rápido que a vizinhança dizia que ela já casara buchuda. Não era verdade. Foram exatos nove meses de gravidez. E, mesmo com as limitações dos enjoos e outras indisposições, fazer amor fazia parte da intensa vida dos dois. Só muito próximo do nascimento de Julinho é que as coisas ficaram mais complicadas, e a constância teve que ser modificada. Valia a pena, pois o sonho de ter filhos e consolidar a união era a prioridade.
Depois do nascimento do menino, a vida foi se transformando. Quando o garoto dormia, e o casal tentava fazer amor, logo o guri abria o berreiro e impedia a concretização do desejo.
Os anos se passaram e a prole cresceu até a chegada do sétimo filho. Nesse tempo, Eufrásio já era um cansado operário próximo da aposentadoria. Amelinha, apesar da dureza da condução das crianças, por uma deferência do destino, manteve-se esbelta e sensual. Usava decotes, saias curtas e passava cremes nas coxas firmes. Fazia parte da ala das baianas da escola de samba e orientava jovens para que se afastassem do uso das drogas. Era uma líder comunitária respeitada.
Eufrásio chegou ao seu lar já noite alta. Amelinha não estava; deixou um bilhete, avisando que iria demorar e que o jantar estava no forno do fogão. Eufrásio engoliu a gororoba e refestelou-se no sofá da sala. Ficou vendo televisão. Quando Amelinha abriu a porta, o ministro apareceu na tela, repetindo a recomendação de fazer sexo cinco vezes por semana. Eufrásio pediu atenção para a fala da autoridade, dizendo:
– Olha aí, meu bem, o ministro é da saúde e sabe o que fala.
Amelinha, com sorriso malicioso nos lábios, seguiu em direção ao quarto, respondendo:
– Ando em dia com a minha saúde; não sei de você!
segunda-feira, 10 de maio de 2010
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