domingo, 13 de junho de 2010

Pé de maconheiros

Por: Paulo Castelo Branco
Desde que o mundo é mundo que o ser humano usa algum tipo de droga. Os controles sociais, as leis, a justiça e a ação policial têm sido insuficientes para combater, com eficiência, os danos que as substâncias causam à saúde da população, especialmente a dos jovens.

Na história, são vários os exemplos de personalidades que se utilizam ou utilizaram de algum tipo de droga. Agora, a moda é o “crack”, que está devastando uma geração inteira de meninos e meninas. E não é por falta de informação que os jovens são envolvidos por traficantes: a curiosidade, o descuido familiar e, acima de tudo, a estupidez que domina essa minoria os levam à prisão, à exploração, à decadência e à morte.

Diariamente, as autoridades mundiais se desdobram no combate ao tráfico e ao uso de drogas; no entanto, os países produtores, sob o pretexto de preservar costumes seculares, omitem-se e abrem suas fronteiras para a disseminação do mal. É hora de que sejam tomadas posições corajosas como a do pré-candidato José Serra, que se manifestou sobre a realidade e sofreu duras reações do governo.
Na verdade, não será com prisões lotadas de usuários e pequenos traficantes que o problema será resolvido. O máximo que conseguiremos com uma política séria e permanente será conter o uso entre os jovens e incluí-los como divulgadores dos malefícios que as drogas causam.

Como os governos são impotentes para conter a entrada de drogas pelas nossas desprotegidas fronteiras, alguns cidadãos se utilizam de métodos primários para afastar de suas residências os perigos e a fumaça que os cachimbos e as bitucas trazem.
É o caso de um morador da Península dos Ministros, no Lago Sul, em Brasília. A região é uma das mais seguras do País. Além da segurança feita por militares das Forças Armadas, um contingente policial oficial e seguranças privados garantem a tranquilidade das demais autoridades e dos cidadãos ali residentes. Parece o paraíso de tão calmo.

Pois não é que o tal do morador, preocupado com alguns jovens que praticam esportes à vela, resolveu, contrariando a pré-candidata Marina Silva, devastar as árvores de sua casa e da área pública que circunda o Lago Paranoá? São espécies que estão por lá há mais de quarenta anos. Frondosas, servem para que pescadores eventuais se protejam do sol inclemente desta época do ano. Alguns não respeitam as regras de educação e deixam restos de lixo sobre o gramado. Outros são jovens que, em suas bicicletas, chegam em algazarra e pulam no lago, aproveitando a pureza de suas águas. Entre eles sempre existe algum casal mais afoito que troca carícias e não se incomoda com os olhares reprovadores; mas são só jovens, como os de antigamente: namoram, fazem barulho, bebem, fumam e vão embora, não são marginais. São filhos dos outros, são como os nossos filhos.
Um caminhante, preocupado com a feroz motosserra conduzida por inábil e tímido operário, perguntou-lhe a razão do abate indiscriminado das árvores. A resposta foi seca:

– Sou só um trabalhador. O homem mandou podar, e eu estou fazendo o meu serviço.

O caminhante, desiludido, seguiu o seu rumo. Ao longe, ouviu a sirene de uma ambulância do Samu. Os paramédicos buscavam um morador que havia surtado. O homem saíra de casa nu, correndo, como se fosse o Maradona após a suposta vitória na África do Sul. O coitado foi contido quase à frente da residência oficial da Mitra Diocesana. O homem espumava e soltava faíscas pelas ventas. Um padre foi chamado para dar a extrema unção. Um médico – tal qual nos aviões – logo se apresentou. Aplicaram um calmante no desesperado. Ele se acalmou e contou, sob frondosa árvore, a sua sina:

– Há alguns anos vim para Brasília. Na minha terra, estorricada pela seca, nunca havia visto árvores tão bonitas com as daqui. Meu sonho era morar à beira do lago e aproveitar esta imensidão de céu azul. Com muita luta, consegui comprar a casa onde moro. De uns tempos para cá, a mais viçosa das árvores começou a dar frutos que eu não conhecia. Eles surgiam no lugar dos originais e se multiplicavam. Na penumbra, eu não os identificava direito. De dia, pareciam os frutos de sempre. Era à noite que eles se transformavam, como se fossem lobisomens. São muitos. Seus olhos são vermelhos e soltam uma fumaça adocicada para todos os lados. Chamei um botânico, que os identificou como maconheiros. Fiquei desesperado e mandei cortar o pé de árvore. Será que estou ficando maluco?

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