Paulo Castelo Branco
O primeiro meio de comunicação surgiu no formato de duas latinhas de extrato de tomate unidas por um barbante. As latas eram conseguidas com seu Manoel, da mercearia, e o barbante, com o Zé do armarinho. Falávamos tão alto, um com o outro, que quase era desnecessário o equipamento. De qualquer maneira, aquela era a nossa integração com o mundo, que avançava em direção à tecnologia moderna.
Na era da telefonia celular, o “tijolão” passou a ser símbolo do poder. Quem podia, é claro, adquiria o seu exemplar e desfilava com ele pelas ruas com orgulho. Conseguir alguém para telefonar era outra missão quase impossível. Quando surgia alguém com seu celular pendurado no ombro, logo um favorecido pela sorte se aproximava para trocar números. Alguns, privilegiados, possuíam agendas com mais de dez pessoas!
E eles foram diminuindo de tamanho e proporcionando menos calor nas orelhas. As sacolas foram abandonadas e os porta-celulares nos cintos se tornaram muito chiques. A única coisa ruim era que, durante as operações policiais, nos inconvenientes “baculejos”, os portadores do equipamento eram os mais visados, pois eles, sob as roupas, poderiam indicar alguma arma de fogo. Daí a ideia de diminuir cada vez mais os telefones. Assim, eles dominaram os consumidores e se transformaram na maior disputa dos últimos tempos.
Hoje, qualquer garoto pode ser contratado a peso de tinta para cartuchos, por inventar uma nova forma de transportar os telefones e criar utilidades de uso. Assim chegamos aos problemas que nos levam aos maiores desatinos. Foi o que aconteceu comigo.
Há uns dois anos, ganhei de presente um fantástico I Phone. Veio da América, como falávamos nos tempos dos telefones de latas. A máquina era fera, disse-me meu neto João Alberto, especialista em tecnologia da informática e pretendente a uma oportunidade na Apple. Só havia um problema. O bicho precisava ser desbloqueado. Não havia problema. Na “Feira do Paraguai”, o Steve fazia o serviço em segundos por simbólicos cem reais. Fui até lá. O “cara” executou a tarefa em segundos e de olhos fechados: era japonês. Paguei e já saí falando com meus amigos, enchendo de inveja as pessoas que usavam seus celulares novos e ultrapassados. À agenda, acrescentei mais de cinquenta novos telefones, só durante uma pequena parada para comer um pastel acompanhado de caldo de cana. Meu neto, esperto, enquanto eu comia, conseguiu completar cinco mil pontos num dos jogos do aparelho.
Durante esse tempo, o I Phone 2G foi meu companheiro inseparável. Com a chegada da internet, fui um dos primeiros a incrementar a novidade. Por módicos 25 reais por mês, fui incluído no mundo dos hightecs. Às vezes, no aeroporto, ficava encabulado com a surpresa dos vizinhos com seus laptops ligados às tomadas, ao perceber o meu fácil acesso às páginas dos jornais pelo Safári.
Com aquela maquininha, acompanhava o movimento das bolsas de valores, recebia mensagens, fazia operações no Itaú, tirava fotos do sujeito dormindo no banco da frente, assistia a filmes no Youtube e ouvia minhas músicas prediletas baixadas pelo ITunes. Nas estradas, seguia as rotas dos mapas. Nunca mais esqueci nem o aniversário da minha sogra. O calendário não deixava. Logo nas primeiras horas do dia, recebia o aviso da fera para o aniversário da bela. Passei a ser o genro mais querido do mundo.
Há dias, num desses momentos de insensatez e (quem sabe?) de um pouco de vaidade, aceitei a proposta da minha “operadora”, que me oferecia trocar o meu velho companheiro pelo novíssimo I Phone 3GS. Fiquei encantado com a proposta e adquiri o telefone, aproveitando milhares de pontos que tinha sem nem saber como. Acho que não fui muito vivo ao fazer o negócio, pois, além de ficar horas recebendo números de protocolos não mais anotados e repetidamente enviados para a caixa de mensagens, desisti de fazer a compatibilização do velho e do novo IPhone. O bicho estava com defeito e perdi a minha preciosa agenda e as notas.
Já havia doado o meu aparelho para o neto e tive que me acomodar com um aparelho menos sofisticado, que dormia numa gaveta. Depois de muita insistência, recebi o novo aparelho. Saí socialmente reabilitado. Coloquei o aparelho no bolso da camisa para impressionar as pessoas nas ruas. Não dei dois passos e percebi o cadarço do sapato desamarrado. Abaixei-me e o “Steve”, como o apelidei, caiu no chão. Ficou mudo.
Na bela caixa, procurei o endereço da oficina de reparos. Não havia. Tirei o “chip”, coloquei no velho estepe e, depois de uma hora, consegui a solução:
– No Brasil, a Apple não conserta telefones.
Respondi a várias perguntas e esperei.
– Faremos a troca do aparelho em três dias. O valor da troca – quase a metade do valor da compra – virá em sua conta telefônica do próximo mês – disse-me a gentil atendente, que merecia nota dez na avaliação feita em seguida.
A operadora, que não se deixa avaliar no rol de notas, quase me matou de raiva. Enquanto aguardo o novo aparelho, vivo pensando, com saudades, das minhas latinhas ligadas por cordão.
Paulo Castelo Branco é advogado e ex Secretário de Segurança Pública do DF
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário