CARTOMANTE
São Gotardo é uma cidade cheia de ladeiras e grande população japonesa. Seu povo, minerim prá danar, convive com os orientais que chegaram, na metade do século passado, para plantar e colher verduras e legumes. Estabelecidos, alguns se casaram com os nativos e seguem a vida como ela é.
Seu Gumercino, de família tradicional e pioneira na região, vive por lá desde o tempo da transformação de vila em município e depois na cidade agradável e de gente boa em que se transformou São Gotardo.
Nas terras de Seu Gumercino o gado leiteiro é o forte. Apesar da pressão dos grandes empresários da produção agrícola, ele nunca aceitou vender, ou mesmo arrendar a sua propriedade. Os filhos, maravilhados com o progresso dos vizinhos, insistiram com o pai para permitir que eles próprios desenvolvessem projetos de produção de alimentos. Não conseguiram.
Gerardo, primogênito, pensando no futuro, formou-se em agronomia em Viçosa. Na formatura ouviu do pai a desanimadora afirmação: – Você deveria ter estudado veterinária. Nas minhas terras,agricultura só para subsistência familiar. Enquanto eu viver, quero ver o meu gado crescendo forte e bonito. Gerardo,desiludido, nem voltou para casa. Dali mesmo seguiu para a Holanda para estágiar em uma grande empresa produtora de tomates. Nunca mais voltou.
Márcia, a outra filha, foi para Belo Horizonte estudar artes cênicas e inglês. Numa festa de final de ano conheceu Franz, alemão e dirigente da empresa onde trabalhava o seu irmão Gerardo. Apaixonaram-se, e lá se foi Márcia, a queridinha do pai, para a distante Alemanha.
Gumercino ficou muito triste com a ausência dos filhos, e passava o dia percorrendo suas propriedade em completa solidão. Num sábado, na barbearia, soube da presença de Dona Diva, famosa cartomante. Aderbal, o barbeiro, lhe relatou que a cartomante sabia tudo da vida de qualquer um. Falava do passado, do presente e do futuro. – Não acredito em nada disso, reagiu Gumercino. Na segunda-feira, antes da oito da manhã, lá estava Gumercino sentado à frente de Dona Diva.
– Quero saber o meu futuro. O passado e o presente eu já sei, disse o fazendeiro de forma arrogante.
A cartomante, tranquila, jogou búzios, cartas e examinou ofuturo na bola de cristal. Olhou para o consulente e disse:
– Você vai cair do seu cavalo favorito e se machucará muito; uma cobra vai picá-lo em sua perna direita e você, depois de muito sofrimento, mancará pelo resto da vida, quando uma vaca o atingirá entre milhares de pessoas que estarão circulando por uma ponte. Gumercino riu, levantou-se, enfiou o mão no bolso e deixou uma nota de cinquenta reais sobre a mesa. Saiu sem olhar para trás.
Não se passaram dois meses, quando a primeira previsão se concretizou. Gumercino, montado no seu belo cavalo manga-larga, verificava a marcação do gado. Uma ventania jogou por baixo do animal um tufo de galhos cheios de espinhos. O bicho, incomodado, refugou, levantou as patas dianteiras e galopou rente às cercas, provocando ferimentos no cavaleiro até que ele, sem forças, caiu e foi pisoteado. Passou quatro meses se recuperando e pensando na advinhação da cartomante.
Quando saiu do estaleiro, esqueceu o acidente e retornou às suas atividades. Não se passou uma semana e mais uma das previsões de Dona Diva se realizou. Gumercino, sentado na varanda de casa, pitava seu cigarrinho de palha e se deliciava com uma pinguinha da sua fabriqueta artezanal. Usava chinelos e não percebeu a cascavel rastejando aos seus pés. Sentiu a pele fria da peçonhenta, assustou-se e recebeu a picada na perna direita. Estava só em casa. Gritou pedindo socorro e desmaiou. Acordou no hospital. A perna ficou paralizada. Segundo os médicos, teria que fazer fisoterapia por alguns meses. Desta vez acreditou na cartomante.
Chamou os filhos e comunicou que iria se mudar com a mulher para São Paulo. As terras seriam divididas entre os dois. Comprou um apartamento de dois quartos com portas estreitas que não permitisse a passagem nem de vaca pequena.
Acostumou-se com a vida na metrópole, e nunca mais se lembrou das previsões de Dona Diva,até o dia em que foi passear pelas ruas de São Paulo. No viaduto do Chá, despreocupado, olhava os carros passando por baixo do viaduto, quando ouviu um grito: – Olha a vaca! Nem pensou duas vezes; pulou o parapeito e estatelou-se lá embaixo. Não chegou a ouvir o resto do pregão do vendedor que oferecia bilhetes da loteria com o final 99, da vaca.
Paulo Castelo Branco.
terça-feira, 27 de abril de 2010
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